comunicação dos casos. A epidemia de dengue no último verão brasileiro deixou toda população em estado de alerta e muito apreensiva onde de certa forma todos ficaram "reféns" do medo de contrair à terrível forma hemorrágica. É dever de todos os profissionais da saúde ficarem preocupados e fazer o que for necessário para ganhar a "guerra" contra o dengue, mas a ajuda da população é essencial nesse combate, principalmente nos criadouros e na comunicação dos casos. Não se pode perder tempo, uma verdadeira "operação de guerra" precisa ser efetuada contra essa epidemia, pois é provável que em algum dos próximos verões ocorra à manifestação de um sorotipo de dengue que até então, não existia em nosso território, a Den-4 (sorotipo 4), que deverá ocasionar um número ainda maior de óbitos pela dengue hemorrágica na população. A dengue é uma doença infecciosa aguda, de natureza virótica, transmitida por um mosquito (vetor) da família dos culicídeos, sendo o principal vetor o Aedes aegypti, que vive nas regiões tropicais e subtropicais do planeta, entre as latitudes 45o N e 35o S ,inclusive é o mesmo vetor da febre amarela; também há uma outra espécie de mosquito da mesma família que é muito comum no Brasil, o Aedes albopictus, onde no continente asiático é um importante vetor do dengue, oficialmente não é considerado um vetor da doença nas Américas. Porém, pessoalmente acho que isto precisa de mais estudos e ser revisto, pois já constatei à presença do A.albopictus em alguns bairros da cidade de São Paulo, inclusive em casos suspeitos de dengue onde não foi achado o A..aegypti. Mediante estes fatos resolvi fazer uma investigação biológica onde basicamente comparei as duas espécies pela anatomia interna, principalmente na região anterior do aparelho digestivo de ambos mosquitos e constatei que internamente não há nenhum "obstáculo" que impeça que o mosquito Aedes albopictus possa ser um vetor em potencial do vírus do dengue, aumentando ainda mais as possibilidades de transmissão da epidemia, bem como também da maior possibilidade de reurbanização da febre amarela, por isso devemos ficar em alerta.
O nosso vilão na verdade é um arbovírus, isto é, vírus transmitido por artrópodes e pertence à família dos flavirídeos, que incluem aproximadamente 70 espécies de vírus, sendo que cerca de 30 causam doenças ao homem, tais como o vírus da febre amarela, vírus da encefalite do oeste do Nilo, vírus da encefalite japonesa, rocio, entre outras. Esses arbovírus sempre é transmitido ao ser humano através de um vetor (mosquito) e por isso é de extrema importância o monitoramento das populações e dos aspectos ecológicos relacionados com os ciclos de vida dos mosquitos, pois a informação é uma grande arma na eficácia do controle dos vetores. Atualmente são conhecidos quatro sorotipos do vírus da dengue DEN 1, DEN 2, DEN 3 e DEN 4, mas este último ainda não foi detectada no Brasil, no entanto, já esta em quatro países na América do Sul que fazem fronteira conosco.
x
Comportamento Reprodutivo:
O mosquito adulto Aedes aegypti costuma viver próximo ao seu criadouro, onde ocorre seu acasalamento e acredita-se que o mosquito pode voar até mil metros de distância do local de nascimento. Possuem hábitos diurnos e sugam seiva de vegetais, mas para manutenção dos ovos, a fêmea pratica hematofagia alimentar, ou seja, alimenta-se de sangue e podem por até 200 ovos por vez, após à postura dos mesmos há o desenvolvimento embrionário em até três dias em condições favoráveis, depois ocorre à eclosão dos ovos originando as formas larvais que passam por quatro estágios na água, desde que esteja imóvel e preferencialmente limpa, então , qualquer água armazenada (vasos, pneus,reservatórios, garrafas, latas,...) é um potencial criadouro dos mosquitos. Em condições favoráveis, o período larval e a pupa pode completar-se em 5 à 10 dias e torna-se uma forma apta ao vôo. O mosquito torna-se um vetor após ingerir sangue infectado, então, o arbovírus vai se localizar nas glândulas salivares do mosquito fêmea, onde se multiplica após 8 à 12 dias de incubação, ficando infectado pelo resto de sua vida (até 8 semanas).
x
Sintomas:
No ser humano, após à picada do mosquito infectado, os sintomas aparecem após 3 a 15 dias ( período de incubação), em média 6 dias. Mas o período de transmissibilidade começa um dia antes do aparecimento dos sintomas e vai até o sexto dia da doença e normalmente os sintomas duram de 2 a 7 dias, incluem a febre alta (39 à 40 º C) repentina, cefaléia, artralgia (dor nas articulações), dor abdominal, vômitos, erupção da pele, algumas hemorragias e perda de líquidos, todos esses caracteriza à forma clássica da doença. Porém, em alguns casos (surgimento de um sorotipo diferente em alguém que já teve dengue) ocorre uma evolução rápida para à forma hemorrágica do dengue, que além dos sintomas citados, há manifestações hemorrágicas graves, hepatomegalias e insuficiência circulatória; isso devido à alteração da coagulação sanguínea, plaquetopenia e coagulação intravascular disseminada de alta gravidade, causando insuficiência circulatória (choque) e morte. A manifestação do dengue hemorrágico esta vinculado a um mecanismo imunológico devido à sensibilidade prévia causada pela dengue clássica. Dessa maneira, os anticorpos tipo IgG, subneutralizantes para os outro soros tipos, formam imunoclomplexos com antígeno circulante, afetando profundamente à membrana plasmática dos leucócitos mononucleares e facilitando à migração de antígenos virais para alguns tecidos. A confirmação laboratorial sorológica de dengue é feita pela detecção da imunoglobulina IgM específica em amostra de soro a partir do sexto dia da doença.
x
Um pouco de história:
No mundo, os primeiros relatos relacionados com dengue são da Ilha de Java (1779) e da Filadélfia, nos EUA(1780). No Brasil, as primeiras referências datam desde de 1846, quando uma epidemia teria atingido algumas cidades, entre elas, São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, na época ficou conhecida com o nome de "patuléia", "polca" e febre eruptiva reumatiforme e durou dois anos; chegou ao nosso território por navios, inclusive de trafego negreiro.Há registro de uma epidemia em São Paulo, entre 1851 e 1853, e outra em 1916, que ficou conhecida com o nome de "urucubaca" e em 1923 foi descrita uma epidemia de dengue em Niterói(RJ). No entanto, só em 1982 é que o dengue foi pela primeira vez laboratorialmente documentada em Boa Vista(Roraima), em 1986 ocorreu uma epidemia de grandes proporções no Rio de Janeiro causada pelo DEN-1 e em 1990 foi detectada a DEN-2 também no Rio, que provocou um surto de Febre Hemorrágica do dengue, incidindo em pessoas previamente expostas ao DEN-1 em 1986, como também em outros estados.
x
A triste estatística:
Até final do mês de Junho deste ano foram registrados 672.371 casos de Dengue no Brasil, sendo que 2090 da forma hemorrágica com 96 óbitos. Só no estado do Rio de Janeiro foram 63 óbitos pela dengue hemorrágica, deste número, 37 óbitos só na capital carioca; por comparação,no estado de São Paulo inteiro foram notificados 5 óbitos e há três anos foram apenas dois óbitos em todo país. Tendo em vista que uma grande parte dos casos neste último verão foram causados pelo sorotipo 3 do vírus do dengue, então, há uma enorme possibilidade da "chegada" ao Brasil no verão de 2003 do sorotipo 4 , indicando uma ameaça real e imediata de ocorrência de uma epidemia maior que o ano anterior, inclusive para quem já teve à doença, pois maior é a suscetibilidade para desenvolver à forma hemorrágica, aumentando para o próximo ano o número de óbitos pelo o mesmo. Levando-se em conta esse novo sorotipo e a possibilidade de uma outra espécie de mosquito ser um potencial vetor associada as condições climáticas favoráveis a procriação dos mosquitos, as chuvas de verão, ao relaxamento dos órgãos públicos na educação e saúde pública para prevenir à formação de criadouros e também da própria população em colaborar, incluindo à falta de recursos e de preparo técnico, além de políticas inadequadas ao longo de muitos anos formam uma verdadeira "receita" para o surgimento de uma epidemia de dengue ainda mais devastadora, infelizmente!
x 
Mais materias relacionadas:
x
x
Créditos: Paulo Aníbal G. Mesquita - Biólogo
 
Dengue - Aedes Aegypti
A epidemia de dengue no último verão brasileiro deixou toda população em estado de alerta e muito apreensiva onde de certa forma todos ficaram "reféns" do medo de contrair à terrível forma hemorrágica. É dever de todos os profissionais da saúde ficarem preocupados e fazer o que for necessário para ganhar a "guerra" contra o dengue, mas a ajuda da população é essencial nesse combate, principalmente nos criadouros e na